sempé, a fotografia, a bicicleta e o instante decisivo e ainda… o abaixar das câmeras…

Afirmo que se eu não fosse fotógrafa, seria ciclista. Vou de bicicleta para todos os lugares. É meu veículo oficial. E acho muito bom! Se eu tivesse destreza, fotografaria enquanto pilotaria minha bike. Mas eu não tenho essa habilidade, ainda, digamos. E de tanto amor a essas duas artes, me chegou – aliás chegou nas mãos do meu filho de presente de aniversário – o livro Raul Taburin,  belissimamente escrito e desenhado pelo famoso ilustrador francês Jean-Jacques Sempé (nome sugestivo para os sem juizo e viajantes na memória e na mente como um todo). Ele e René Goscinny publicaram a série de tirinhas que em 2009 deram inspiração ao filme do também francês Laurent TirardLe Petit Nicola” ou “O Pequeno Nicolau“. Vale a pena assistir! Lindo demais! Também é de Sempé o conhecido Marcelino Pedregulho.
Mas o Raul Taburin me impressionou. Li junto com meu filho. Não há que se contar história de livro e de filme completa para não estragar surpresas, mas confesso que desta vez um pouco da trama terei que revelar pelo tema que ela destrincha.
O sr. Taburin é um mecânico de bicicletas, mas esconde um segredo: não sabe andar de bicicleta. Morre de medo. E um amigo seu entra na história, o Hervé Figure, que é nada mais nada menos que um FÓTOGRAFO!!! Hervé também tem um segredo… No livro a convivência dos dois é balisada e tensionada pelos segredos de ambos, com um final lindamente poético. Como todo o livro o é… Uma poesia só…
Mas o que mais me impressionou foi o questionamento ético que permeia toda a história: a discussão sobre o instante decisivo (veja no site Photosynteses)… Isso mesmo! O Hervé Figure, fotógrafo, discute sim o instante decisivo num livro para crianças e pré-adolescentes! Mas sinceramente o livro não foi escrito para uma faixa etária específica. É incrível ver nas linhas do livro o que o Hervé com tristeza e dor argumenta sobre como ele esperava que tivessem sido as várias fotografias que ele realizou na vida… Ele achava que não sabia fotografar… E vem aquela famosa e necessária “falação” do que seria realmente o instante decisivo que o Henri Cartier-Bresson tanto apresentava em sua obra… Vejam a página do livro Raul Taburin que reproduzi aqui. Numa cena, o Hervé apresenta, segundo ele, a famosa imagem do fotógrafo Robert Doisneau, de um instante decisivo. Na outra página, a foto do Hervé… E na outra página ele conta também sobre um instante decisivo de Cartier-Bresson e a foto que Hervé fez para a mesma cena. Maravilhoso!!! Cliquem duas vezes nesta imagem do livro, para ver mais de perto.
Texto do livro: “Você compreenderá o meu drama íntimo. Você conhece esta foto (Taburin não teve tempo de negar), sabe que ela é de Robert Doisneau e que foi reproduzida por todos os cantos. Você lembra que o primeiro-ministro inglês veio, em companhia da esposa, acertar aquela história da dívida da França. Na chegada, o tapete vermelho se soltou da escada e o ministro quebrou o pulso. Eu também estava lá…
E eis a minha foto. Tecnicamente, é perfeita. A massa negra dos burocratas e a menina com as flores: ficou ótima. Mas eu não soube flagrar o momento, o instante decisivo.
Leiam o livro!! Vale a pena!!! Essa discussão sobre quando abaixar a máquina também entra nas palavras do Raul Taburin. Em parte da história, Hervé Figure, está entre fazer a foto da sua vida e salvar seu grande amigo Raul Taburin de morrer numa queda de bicicleta de um penhasco. Lembrando do documentário realizado pela Núcleo de Imagem sobre os fotojornalistas do Rio “Abaixando a máquina” (leiam artigo do Guilhermo Planel) e no blog 7 Fotografia que tem puxado muito bem para a roda essa temática…
Enfim… Essas questões sempre virão na cabeça dos fotógrafos e recortadores, criadores de imagens…
O difícil ainda é responder de maneira tranquila e determinada para o meu filho, que no final do livro perguntou: mãe, mas ele tinha mesmo que ter feito a foto do melhor amigo dele se espatifando na montanha ao cair da bicicleta???
Ah!! Muito importante!! Não achei esta foto do Doisneau!! Se alguém achar, por favor, entrem em contato e me digam para eu continuar este comentário.
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Uma resposta para sempé, a fotografia, a bicicleta e o instante decisivo e ainda… o abaixar das câmeras…

  1. Luciana, sou escritor de livros infanto-juvenis e poucas vezes senti o que senti pelo livro do Sempé: eu queria ter escrito Raul Taburin!!! Você disse que gostaria de ser cicilista se não fosse fotógrafa, mas eu gostaria de ser fotógrafo se não fosse escritor. Veja como são as coisas.Gostei demais de seu blog, já gravei nos favoritos e vou virar freguês.Um beijo,Cláudio Fragata

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