ode aos sobrados, por fernando martinho

sobrados
 FERNANDO MARTINHO – Coletivo Paralaxis – “Sobrados da Zona Oeste
Minha mãe, dona Avany Cavalcanti, sempre dizia: “os espigões estão dominando a cidade e daqui a pouco vento e casa vão ser coisas do passado aqui em Recife”…
Infelizmente ela previa o que atualmente tem se confirmado em algumas cidades do Brasil, como por exemplo em Recife e São Paulo.
Em Recife, no início da década de 1920, o sociólogo, antropólogo, ensaísta e pensador social Gilberto Freyre volta de seus estudos realizados nos Estados Unidos e na Europa e entra em choque quando encontra após cinco anos de sua ausência uma cidade em reforma, com seu patrimônio, ruas, praças, casas sendo destroçados pelo que ele chamaria de “excesso de urbanização“. Esta mudança estrutural das cidades ocorreu também em outros lugares do mundo, como em Paris, por exemplo.
A professora Helouise Costa em seu livro “A Fotografia Moderna no Brasil” cita um trecho do artigo de Wilson Coutinho publicado no Jornal do Brasil de 08 de abril de 1984 “Atget, um clássico da fotografia moderna” e comenta:
O caso das reformas urbanas de Paris, levados a cabo por Hausmann, é extremamente representativo. Napoleão III, por ocasião da abertura dos boulevards, decretou uma lei que institucionalizava a documentação fotográfica como um serviço de utilidade pública. A destruição da cidade incomodou os amantes de Paris como os homens do patrimônio. A lei oferecia francos a quem fotografasse algum aspecto das ruas de Paris, seus monumentos e logradouros, alguns que seriam devorados pela reforma urbana de Napoleão III, fotos estas que eram compradas pela municipalidade. Outro comércio era a própria adoração de Paris, havendo um mercado de colecionadores que se dedicavam a possuir em 18×24 cm, tamanho das fotos da época, pedaços da velha cidade que estava prestes a desaparecer”.
……………………
Recentemente foi divulgado na imprensa pernambucana o projeto “Novo Recife” (leia-se no blog Acerto de Contas) que dentre outras transformações e ocupações desmedidas, inclui a construção de gigantes prédios na área do Cais José Estelita – uma área do centro da cidade com vista privilegiada para o encontro do rio com o mar – , que além de não colaborar para a preservação do patrimônio, execra com a possilibidade de revitalização coerente, humanizada e adequada daquela espaço do Recife Antigo.
E vê-se por todo lado obras de prédios cada vez mais altos e total descompromisso com o que ainda resta de patrimônio no país. A diferença no Brasil do período em que Gilberto Freyre se espantou com a descontrução da cidade do Recife para hoje em dia é que à época a ideia era não ter mais nada da Monarquia e sim edificações com a cara da República. E tudo o que representasse o regime anterior deveria ser destruído.
Hoje a ocupação do espaço urbano tem se dado de maneira mais trágica, pode-se afirmar, a partir do momento que a pressão de construtoras nutrem o objetivo de verticalizar as cidades em porcentagem além do necessário e ético, excluindo moradores antigos ou casas que fazem parte da história e do nascimento da memória de um lugar. É a identidade que se perde… E de forma muito mais rápida do que em qualquer outra época. Afinal é mais gente para habitar, mais gente para pagar e mais gente sem se preocupar com o que preservar de suas lembranças afetivas, incluindo o espaço onde se vive. Vale ler o excelente artigo de Cláudia Linhares Sanz no Icônica, sobre casas e sua memória e afeto.
Nesta perspectiva de observação e convivência com esta problemática, nasce o belo e apurado trabalho do fotógrafo carioca, Fernando Martinho (participa do Coletivo Paralaxis) sobre os sobrados ainda resistentes da zona oeste da cidade de São Paulo, que vai ter lançamento em livro no próximo dia 14, a partir das 19h, na Rever .
Morando em São Paulo há mais de 12 anos, desde 2010 fotografa sobrados antigos através de sua câmera digital que capta a imagem de um vidro despolido de uma Rolleyflex dando à foto o ar que ele precisa para revelar a nostalgia, a memória antiga de fachadas e casas que ainda conseguem sobreviver na vasta subida de edifïcios que invade São Paulo há alguns bons anos. “A textura do visor, as sujeiras, arranhões e até o fato da imagem estar invertida contribuiram para compôr a atmosfera lírica que almejava. A idéia de memória, das lembranças, das vidas passadas, de tempo, estava tudo ali. E acho bastante poético também, é praticamente uma ode aos sobrados“, conta.
O seu objetivo é continuar fotografando os sobrados “até eles acabarem“, afirma.
sao paulo,brasil 2011 fotos de casas paulistanas
FERNANDO MARTINHO – Coletivo Paralaxis – “Sobrados da Zona Oeste
Quando vim pra SP me surpreendi com a quantidade de casas. Imaginava a cidade muito mais vertical. O Rio de Janeiro (zona sul) quase não tem mais casas. Fui morar na Vila Madalena e assisti de perto as demolições e transformações no bairro. E assim foi na cidade inteira. Hoje vejo bairros antigos totalmente desfigurados. Aquela cultura de bairro pequeno, tranquilo se foi. Hoje vivemos sob uma ditadura das incorporadoras imobiliárias, onde não se valoriza nem respeita o antigo, o histórico, o público”.  
 
Nesta pesquisa quase iconográfica além de fazer uma vasta documentação fotográfica, Fernando tenta entender como se dá este projeto de urbanização que acontece na cidade por meio de sua árdua busca e olhar fotográfico investigador.
É controverso: as pessoas querem morar em aptos de 40 metros quadrados em torres de vinte andares encravadas em ruas que não as comporta. A cidade não as comporta. O sujeito vai levar 20 minutos só pra sair da garagem do prédio. Vai acabar a cultura de bairro. Algumas empresas do ramo imobiliário vendem ‘bem estar’ mas não contribuem para isso, muito pelo contrário. Sem falar que muitas, ao meu ver, agem de modo criminoso. Por exemplo: vários vendem imóveis de luxo e contratam (de forma totalmente ilegal e desumana) homens e mulheres para segurarem aquelas placas-setas nas esquinas. Derrubam imóveis tombados pelo patrimônio histórico na calada da noite. Fazem terrorismo e ameaçam moradores de casas humildes. Enfim muita picaretagem“.
“Uma cidade humanizada ela deve valorizar o coletivo. Onde existe espaço público decente, onde o pedestre seja prioridade. As pessoas devem circular por ela, devem se misturar. Segregar é desumano!

Eu vivi minha infância em casa e brincando na rua. Vivia em Santa Teresa, no Rio. Eram outros tempos, vivia em cima de uma goiabeira no quintal, andando de bicicleta pelas ladeiras, ia de bonde pra escola. Conhecia todas as ruas, becos, vielas e escadarias como a palma da minha mão”.

“Fotografei diversas casas que já foram destruídas. Um horror! Hoje em dia a gente pisca e já derrubaram quarteirões inteiros. Já é difícil ver o horizonte nessa cidade, imagine daqui a dez anos”. 
Fernando Martinho sempre se dedica a uma ideia de modo intenso e instigante. Desde que iniciou este projeto, saiu andando pelas ruas e chegava todas as vezes em nossas reuniões do Coletivo Paralaxis cansado e decepcionado com o que via. E fomos, eu, Alexandre Severo e Stefan Schmeling acompanhando aos poucos sua evolução e espanto com o que a verticalização causou a São Paulo. Muito bom ver este projeto que também pode ser tido como uma denúncia aos abusos cometidos contra o espaço urbano, contra a memória de uma cidade e contra a delicadeza que nela ainda existe. Triste perder esta delicadeza… Mas mesmo com pesar que tenhamos, as fotografias podem motivar mudanças e trazem lembranças de um tempo que já não existe mais. É quando a fotografia vira patrimônio! Felizmente e infelizmente…
Parabéns, Fernando e linda Ode aos Sobrados!! E que estas possam trazer luz a esta questão tão emergente e necessária à discussão…
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O QUE: Coquetel de Lançamento do livro do Fotógrafo Fernando Martinho – COLETIVO PARALAXIS – “Sobrados da Zona Oeste 
QUANDO: Sexta-feira, 14 de dezembro
HORA: a partir das 19h
ONDE: Espaço de Estudos em Fotografia REVER – R. Artur de Azevedo, 1307 – Pinheiros – São Paulo – SP
QUEM PATROCINOU: Edital da Secretaria de Cultura do Estado (PROAC)
PUBLICADO POR: Editora Olhares
VALOR: R$ 50,00

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tem sim, edição em português de Portugal do "Anus Solaires" de Georges Bataille!!!

O fotógrafo Frido Claudino nos trouxe uma informação muito boa e corrijo-me aqui através dele. Leiam nos comentários do post sobre o Bataille e aqui:
Há uma versão em português do “Ânus Solar” editada pela Hiena Editora de Lisboa em 1985. E outra mais recente intitulada “Ânus Solar: e outros textos do Sol” editado também em Portugal em 2007 pela Assírio & Alvim. Um dos textos de abertura do livro é “O coito é a paródia do crime” que está presente também em outras coletâneas como “Ex-libris eróticos” da Editora Fenda(1985) também de Portugal. Vale a pena a leitura.”
Não há edição brasileira, mas edição portuguesa! Maravilha saber!

Obrigada, Frido!!!

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bataille e os seus três olhos

Ontem me vieram à cabeça duas perguntas, após uma semana repleta de discussões instigantes com uma amiga fotógrafa e pesquisadora Raquel Moliterno e com leituras pertinentes à história, sociologia, antropologia… Todas estas áreas relacionadas à fotografia. Também após encontrar bons, às vezes inúteis, felizes ou infelizes comentários sobre a fotografia e seu uso como instrumento de ego e não de pacificação e discussão construtiva das idéias. Enfim…
São as perguntas:
o que a fotografia NÃO É?
e o que a fotografia NÃO DEVERIA SER?
Ela pode ser para muitos, ainda registro do real, obra de arte, instrumento de pesquisa, recorte de um plano, de uma idéia, testemunho, objeto de fazer e fixar memória e – por que não de ativistas??… Inspiradora de conceitos, de imaginação, de contação de histórias!!! Ah!! Vocês melhores do que eu podem atribuir várias afirmações a respeito da fotografia, sobre o que ela é. Mas sobre o que ela NÃO DEVE SER é uma conversa mais complicada que podemos tecer aqui…
E porque ela NÃO DEVERIA SER tal coisa é melhor ainda… E para que ELA NÃO SERVE então?
É um fetiche o uso da fotografia e disso não se pode escapar também. Ela pode mudar comportamentos ou inspirar uma transição de pensamento importantes na história de uma época ou de um grupo.
Seguindo esta premissa, descubro que uma das maiores provas dessa motivação pela imagem fotográfica foi o escritor Georges Bataille. Ainda timidamente e muito timidamente tenho adentrado no universo teórico e vale salientar explêndido da sua obra. Maria Victoria Gaburro de Zorzi e Júlia Vilaça Goyatá, alunas da pós em Antropologia tem sido responsáveis fundamentais por esta minha ainda introdutória inserção na obra deste francês tão polêmico quanto grandioso.
Basicamente encontrei Bataille na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da USP no Grupo de Pesquisa de Pós-Graduação da Antropologia sobre Formas Expressivas coordenado pela professora Fernanda Arêas Peixoto. Aliás, uma semana antes, Bataille me veio a partir da visualização da capa de sua obra  reeditada em 2003 no Brasil pela Cosac Naify intitulada “A História do Olho“. Vale ler comentário sobre um trecho do livro no blog Ponto de Vista – nesta reedição (sua primeira edição foi a de 1928) a obra conta com ensaios de Roland Barthes, do grande inspirador de Bataille, o etnólogo e também escritor Michel Leiris e de Julio Cortázar.
A relação de Bataille com o bizarro, com o voyeur, com o inusitado, com o fetiche e tudo isso embutido no seu pensamento sobre corpo, vida, morte, sexo e erótico é recorrente em sua obra conjunta. Ele foi arquivista da Biblioteca Nacional da França. Inspirado pelo seu terapeuta resolveu se dedicar à temática das extravagâncias sexuais e pelo êxtase a fim de exorcizar – segundo literatura afirma – suas tormentas psíquicas.
Mas o que me chamou mais a atenção sobre o porque desta dita inspiração de Bataille foi um artigo – excelente – publicado em 2001 pela Revista de Cultura Cearense/ Paulistana Agulha pelo filósofo Luiz Augusto Contador Borges. Vale salientar que Contador tem sido orientado no doutorado da filosofia da USP estudando a temática de Bataille pelo professor Leon Kossovitch: “Lógica da transgressão: Erotismo e Linguagem em Georges Bataille”.
Neste artigo “Georges Bataille: Imagens do Êxtase” de Contador ele afirma a influência enorme no início da vida profissional de Bataille por um conjunto de fotografias realizadas durante um ato de esquartejamento de um homem na China Imperial em 1905, acusado de ter matado um príncipe.
suplicio
Dois franceses assistiram à execução e a documentaram. Um deles, Georges Dumas, publicou uma das fotos em 1923, em seu Tratado de psicologia. Dumas intrigara Bataille observando que, por piores que fossem o meticuloso trabalho do carrasco e as dores da vítima, o que se via em seus olhos revoltos era uma expressão de êxtase. É bem verdade que o supliciado encontrava-se sob efeito de injeções de ópio, não para mitigar seu sofrimento, como se poderia supor, mas para prolongá-lo ainda mais. O enigma estava criado.”
Na execução do chinês Fou Tchou Li e seu “Suplício dos Cem Pedaços” o sorriso visto no rosto dele é absurdamente intrigante. Ao documentar o ato visto por tantos espectadores, o psicólogo francês George Dumas fica atordoado com o acusado impávido diante do corte de seu próprio corpo e do prolongamento de sua condição de estar entre a vida e a morte, sendo tratado sadicamente por seus algozes.
Bataille ganhou algumas desssas fotos e só foi divulgá-la um ano antes de sua morte, em 1962. Segundo novas descobertas e estudos, estas fotografias influênciaram demasiadamente a sua obra, sempre permeada pelo êxtase e pelo questionamento do mundo ocidental e numa perspectiva que pode ser tratada como ativista de seu pensamento de esquerda e à margem da sociedade. Sua literatura foi muitas vezes considerada como suja pelo meio. Felizmente redescobrem Bataille. E quantos olhos ele tem!!!
E como tem-se visto muitas vezes na construção teórica de muitos pensadores sociais, literatas, antropólogos, historiadores, a imagem fotográfica tem sido crucial formadora, instrumental e motivacional do pensamento de muitos destes.
Segundo Contador, Bataille diz: “É preciso ser Deus para morrer”. Ao se fazer um “recorte” do que vemos, ao contar uma história ou interpretarmos algo ou ainda criarmos um cenário por meio da fotografia nosso fetiche diante das coisas do mundo pode ser facilmente considerado como um ato de morte, mas também como contraponto e ou complemento, de glória. É uma transição entre o fálico, o atirar, o matar e o prazer de ver aquele momento, aquela situação, recortada, reelaborada.
Era necessário para Dumas documentar o esquartejamento? Um ato de prazer e de revolta ao ver alguém com tanta dor sorrir? Mesmo com fins psicanalísicos, expressão desafiadora do chinês chocou e parece ter instigado uma “necessidade” de documentação por parte de Dumas… Mas estas foram muito diferentes das imagens veiculadas hoje em dia em jornais e na tv? E este prazer na dor dos outros – já dizia Suzan Sontag – e Barthes em seu maravilhoso – na minha opinião um dos seus melhores livros “Mitologias” -, ao dialogar em um de seus capítulos a respeito da “luta de boxe” e o voyeur de seus espectadores?
Que ato fotográfico é este que suscita tantas formas e tantos outros atos subsequentes e comportamentais?
Em tempo… Vale lembrar que a primeira obra lançada por Bataille se chamava “Anus Solaires“. Isso mesmo!!! E tinha a mesma temática erótica/ etnográfica do “História do Olho“. Este anterior, não possui tradução em português.
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o mexicano dos horizontes de concreto na china: sze tsung leong

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Sze Tsung Leong!!! Conheci este mexicano de 41 anos – sim, mexicano – numa das aulas de Fotografia e História do professor Boris Kossoy, em meio a uma discussão sobre a temática da urbanização no Brasil no início do século XX. Fui apresentada à obra dele pela também fotógrafa e professora Anuschka Lemos – eis que me surge ao olhos o livro publicado por Sze em 2006 o “History Images“.
Avassalador!! Ele foi à China, sem falar a língua do país e documentou a falta de preocupação com o patrimônio histórico e natural e com a memória do espaço público, mostrando assim o crescente processo de destruição do lugares históricos daquelas cidades chinesas. Uma avalanche de paredões de concreto imensos – promovida pelas altas edificações – e uma ausência humana desoladora nas imagens. Sze chama todo este processo de “apagamento do passado“. Imagens inebriantes! A rapidez com que a China muda sua estrutura de planejamento urbano é o que mais impressiona Sze. E ainda – segundo ele – a história como forma urbana para aquele país é vista como “empecilho à modernização“.
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Em entrevista à revista latina on line de arte e política Guernica – maravilhosa, por sinal – Sze traça suas coordenadas de trabalho e seus objetivos. Vale muito ler!! No livro publicado, há o prefácio do fotógrafo e professor norte-americano Stephen Shore, que concedeu uma palestra em setembro último aqui em São Paulo, no MIS organizada pelo SP PhotoFest. Vale ver o vídeo com o trabalho e falas de Stephen Shore – “American Beauty“. Este fotógrafo, também como Sze, discute a perspectiva e implicações da relação humana com os seus espaços.
Sabe-se que o tema da urbanização aliada à modernização é algo recorrente em vários estudos antropológicos, na história da arquitetura, na sociologia e na fotografia. Em relação à fotografia, leia-se o pertinente estudo de Helouise Costa e de Renato Rodrigues da Silva em seu livro “Fotografia Moderna no Brasil“, onde é inserida a seguinte citação de Wilson Coutinho – “Atget, um clássico da fotografia moderna“, Jornal do Brasil, 8 de abril de 1984.
A destruição da cidade incomodou os amantes de Paris como os homens do patrimônio. A lei oferecia francos a quem fotografasse algum aspecto da rua de Paris, seus monumentos e logradouros, alguns que seriam devorados pela reforma urbana de Napoleão III, fotos estas que eram compradas pela municipalidade. Outro comércio era a própria adoração de Paris, havendo um mercado de colecionadores que se dedicavam a possuir em 18×24 cm, tamanho das fotos da época, pedaços da velha cidade que estava prestes a desaparecer“.
Era a construção dos boulevards na Paris que odiou a construção da Torre Eiffel e da pirâmide do Museu do Louvre…
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Num clima aparentemente frio, ausente, os prédios mostrados por Sze parecem nascer como plantas, um atrás do outro e promove uma falta de saída, adotando o isolamento espacial sem fim. O horizonte é o aperto, a quantidade de conjuntos habitacionais e a destruição do antigo, ou do nem tanto antigo assim, que nem teve tempo para se categorizar como tal. Um trabalho que suscita discussões contemporâneas sobre qual o lugar do homem e como ele ocupa este espaço neste planeta. E enfim… Tantas outras discussões.
Em pensar que no período de transição de regimes de governo no Brasil no início do século XX, a modernização e a urbanização eram as palavras mais do que faladas e ouvidas na sociedade da época – vale lembrar que ainda o são até hoje e continuam possuindo a “adjetivação qualitativa de progresso” dada ao seu uso. As edificações construídas no período imperial envergonhavam o povo brasileiro. A ordem era, derrubar tudo e construir o que tivesse cara de República. Provavelmente, Sze Tsung Leong também iria ficar chocado se vivesse àquela época ou hoje em dia aqui nas grandes cidades do nosso país…
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a discussão da memória por Claudio Parmiggiani e por Chiharu Shiota

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Capa do livro “Petrolio“, do fotógrafo e artista visual italiano Claudio Parmiggiani
Há algumas semanas teve início o curso “Veredas. A saudade e a cidade em suas representações fotográficas” no Centro de Preservação Cultural da Universidade de São Paulo (USP), na famosa Casa Dona Yayá dado pelo professor de artes visuais, o francês Samuel José Gilbert de Jesus. Na última aula, ele apresentou um universo repleto de fotógrafos portugueses, franceses e italianos; alguns mais conhecidos e outros menos e dentre todos a característica era o envolvimento da fotografia com as artes plásticas. Muitos deles de nosso tempo e outros tantos antigos, mas pouco vistos aqui no Brasil.
Um dos mais intrigantes e avassaladores que ele nos apresentou foi o artista plástico e fotógrafo italiano Claudio Parmiggiani. Claudio realizou um trabalho em 1998, que resultou no livro publicado na Itália em 2009 “Petrolio“, sobre marcas e vestígios do tempo de maneira muito inusitada. Trancou em um galpão vários pneus velhos e ateou fogo neles, com o cuidado de não incendiar o local. Logo após, todos os espaços como a biblioteca, por exemplo, – ambiente mais recorrente em sua obra – estavam com fuligem, com a poeira emanada da fumaça dos pneus, formando um “negativo” do espaço. Para dar esta impressão da película negativa de filme fotográfico, após a queima dos pneus, retirou os objetos que estavam dispostos no espaço. Na biblioteca ele retirou os livros, que fizeram com que as marcas deles ficassem na parede. Na sala, uma cortina. Nas prateleiras, alguns objetos como crânio, ampulheta, um quadro com borboletas… Retirar o objeto do lugar é tornar visível sua marca numa superfície que pode ser nomeada como receptáculo.
A intenção do artista italiano é tratar a fotografia, ela, como processo de fossilização, como garantia de que aquilo existiu. E o aspecto de fossilização é o grande objetivo deste trabalho maravilhoso. Claudio usa o lugar como matéria de conciliação da memória, com uma obra feita de poeira e leva em conta a importância do lugar para o indivíduo. Poeira,cinza e luz.  E a pergunta se faz: qual seria a materialidade da fotografia?
Um artigo bem atual publicado pela mestranda da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Aline Dias, é o “Cubo de Poeira“, que cita Marcel Duchamp e Claudio Parmiggiani como os “artistas que exploraram a poeira como matéria de trabalho de suas obras.
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Claudio Parmiggiani
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Claudio Parmiggiani
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Claudio Parmiggiani
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Claudio Parmiggiani
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Claudio Parmiggiani
Uma mistura de nostalgia, melancolia, com pena, lembrança, perda, urgência, marca, alegria, perpetuação, é muito do que se vê nas discussões sobre a questão da memória. Claudio surpreende com sua performance de incendiário, mas ao mesmo tempo de construtor e provocador de uma marca quase que instantânea, formada nas regras da vida pelo tempo que pára ou que estanca um objeto, um momento.
…….
No último dia 09, quinta-feira, outro italiano, mas este radicado no Brasil, o psicanalista Contardo Calligaris, colunista da Folha de São Paulo publicou uma impressão e uma discussão sobre a relação das informações com a passagem do tempo, com a urgência e com a realidade intitulado “Síndrome de Fukushima” – vide blog “Perca Tempo”. E apresentou a paciente e talentosa artista japonesa, Chiharu Shiota, que teve trabalho exposto na Bienal de Veneza – que teve início no último dia 04 -, o “Memory of Books“. Este trabalho, também coloca nos objetos ‘livro’ e ‘biblioteca’ a importância da memória como constitutiva de identidade e de importância para o entendimento das marcas do tempo e como referência de vida e apresenta nas entrelinhas do seu contexto a rapidez e a fugacidade das relações com o nosso espaço. Vale muito ver e  dialogar a respeito.

Chiharu Shiota
Por Chiharu Shiota
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burke, le goff, guran e freyre utilizando a fotografia como documento

burke
Brinco falando quase como uma heresia que historiadores, fotógrafos, antropólogos, sociólogos e biólogos deveriam fazer parte de um mesmo clã… Pois a interdisciplinaridade destas áreas contribuiria demais para todas elas em conjunto e individualmente. Para muitos isso realmente é uma blasfêmia. Para outros, uma oportunidade de enriquecimento teórico, metodológico, cultural e humano.O britânico Peter Burke é um destes ricos culturalmente pela interdisciplinaridade. É um historiador muito presente na vida dos brasileiros e atualmente um dos mais lidos e tem publicado vários livros que discutem a cultura e a história de maneira mais rizomática, (diria Gilles Deleuze) do que muitos outros historiadores; por isso, vem sendo tão celebrado nos últimos anos.

É casado com a brasileira, professora e também historiadora Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke, estudiosa dentre outros temas da obra do sociólogo pernambucano Gilberto Freyre (entre seus livros famosos está “Gilberto Freyre: um vitoriano dos trópicos“).

Uma prova de interdisciplinaridade com especificidade e pesquisa apurada é o livro “Testemunha Ocular” (veja o blog Leitura Obriga História), onde Sr. Burke investiga com propriedade o uso da fotografia nas pesquisas e no trabalho do historiador e como marco na descrição e na vivência social. Vale salientar que nunca é redundante comentar a respeito da problemática que ainda existe em torno do uso da fotografia como fonte de pesquisa histórica – discute isso muito bem e exaustivamente o professor e fotógrafo Boris Kossoy em seu “Fotografia & História” e “Os Tempos da Fotografia: o efêmero e o perpétuo“.

No “Testemunha Ocular” (2004), da coleção “História e Imagem“, Burke apresenta a famosa premissa sobre a “ambiguidade das imagens no uso como evidência histórica” e argumenta que “os retratos registram não tanto a realidade social, mas ilusões sociais, não a vida comum, mas performances especiais“. Boa questão para ser destrinchada mais e mais…

Outro livro que deveríamos ter na cabeceira da mente é o “História e Memória” (2003), do historiador da celebrada Escola dos Annales (atualmente não tanto assim), Jacques Le Goff. No capítulo “Documento/ Monumento“, ele destaca entre outras tantas excelentes explicações que “o termo latino documentum, derivado de docere, ‘ensinar’, evoluiu para o significado de ‘prova’” e cita o século XX como a época do triunfar documental e da enorme “revolução documental“; com o positivismo ‘sinônimo’ de empirismo e praxis, nada melhor que “provas da realidade” que apresentassem melhor as constatações sociais e históricas da época.

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Outro perspicaz debatedor do assunto “fotografia como instrumento e documento” é o antropólogo, professor e fotógrafo Milton Guran, com sua aguçada visão e sensibilidade argumenta muito bem nesta discussão. Sua disciplina que abordava a “fotografia como informação” à época na Universidade de Brasília em meados do final da década de 1990, fazia nossas cabeças e olhos entrarem em parafuso com tantos questionamentos. Vale muito assistir a uma palestra e ler sobre Guran. E vale ler entrevista feita com ele pela professora e pesquisadora pernambucana em fotografia, Geórgia Quintas para o blog Olha, Vê do fotógrafo Alexandre Belém. E vide excelente artigo da professora e historiadora Ana Maria Mauad sobre Guran.
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Mas mesmo com esta “revolução do documento” e com muitos pesquisadores se utilizando da fotografia, ainda há uma resistência dos mais tradicionais ou dos mais céticos ao uso de fontes orais e imagéticas na elaboração de uma pesquisa.
Porém, muito bom lembrar que partir da década de 1920 em Pernambuco, o sociólogo, antropólogo e escritor, Gilberto Freyre, foi um dos poucos pioneiros cientistas sociais até o momento citado a se utilizar realmente de imagens como instrumento de pesquisa. E tinha isto nítido na mente! Visionário como era, polemizador, antagônico, mas buscando essa “tal identidade nacional”, utilizou-se muito de suas fotografias de viagem como base para seu pensamento social. Vale ler o artigo “Por uma sociofotografia” publicado no livro “O retrato brasileiro: fotografias da coleção Francisco Rodrigues 1840-1920“, com textos de Gilberto Freyre, Fernando Ponce de Leon, Pedro Vasquez, publicado pela Funarte em conjunto com a Fundação Joaquim Nabuco (FUNDAJ) em 1983. Mais interdisciplinar impossível, pois até sobre brinquedos de menino, moda e modos e culinária e também fotografia este Sr. de Apipucos discursou!
Viva a interdisciplinaridade!
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a teia de afetos de alexandre sequeira e yi-fu tuan

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Falar de Alexandre Sequeira emociona sempre… E é fácil e ao mesmo tempo dificílimo explicar o que se sente ao ver o trabalho dele… Pude conhecê-lo mais um pouco e saber da construção de seu universo fotográfico na IV Semana de Fotografia do Recife. Uma semana citada aqui no blog como cheia de afeto e gente de qualidade profissional e pessoal.
Sequeira, para quem não o conhece, é nascido em Belém. E como mesmo se apresenta em seu blog, é formado em arquitetura pela Universidade Federal do Pará-UFPA em 1984. Professor do Instituto de Ciências da Arte da mesma universidade, Especialista em Semiótica e Artes Visuais e Mestre em Arte e Tecnologia pela Universidade Federal de Minas Gerais-UFGM. Artista plástico e fotógrafo, desenvolve trabalhos que utilizam a fotografia como vetor de interação e troca de impressões com indivíduos ou grupos. Ele já expôs seu trabalho no Brasil, no Canadá, na Bélgica e na França. Sua ligação com as pessoas e os lugares que ele fotografa é impressionante. Porque a máquina fotográfica é só um meio para a construção de relações de respeito, identidade, amizade… E é efetivamente este meio que deslancha, dá colo e dignidade aos fotografados e atribui outros valores maiores à fotografia.
Descobri um vídeo com Sequeira apresentando Nazaré de Mocajuba, uma vilinha afastada de Belém do Pará, onde ele desenvolveu seu trabalho maravilhoso em que estampou os retratos das pessoas da vila em toalhas, lençóis… Mas essa foi só uma etapa do projeto realizado por ele neste lugar, lindo e com pessoas afetuosas e receptivas.

Outro exemplo de afeto e de talento é a fotógrafa, artista e professora Fernanda Magalhães. Ela também estava na Semana de Fotografia e foi ela quem postou este vídeo no Facebook. Falaremos mais dela aqui por estas vielas fotográficas… Aguardem!
Vendo o vídeo com Sequeira explicando sua trajetória em Nazaré não me canso de chorar… Não me canso de acreditar que enfim, se a fotografia não cria afetividade com as pessoas e lugares, para que ela serve exatamente? Sequeira me põe a pensar efetivamente nas questões proporcionadas pelo ato fotográfico – não discutidas só de boca para fora e para ficar na moda, só para inglês e fotógrafos verem – e me lembra o geógrafo chinês, naturalizado americano, Yi-Fu Tuan. Ele tem discutido desde o seu livro Topofilia: um estudo da percepção, atitudes e valores do meio ambiente” e em outros livros e artigos da geografia humanística, a relação do homem com seu espaço, lugar e a construção da percepção e do que ele chama de “geográfico afetivo”. Tenho lido bastante este senhor de mais de 80 anos que trouxe uma perspectiva realmente focada nas relações das pessoas com seu ambiente e bagunçou a teoria geográfica tradicionalmente conhecida. E na geografia duas correntes preponderavam, pelo que tenho acompanhado: a cultural e a física. Ele é respeitado inclusive pelos marxistas, imersos no conceito de espaço como produto, motivo de discussões majoritariamente políticas, sistêmicas e econômicas. Difícil conhecer pesquisador unânime assim!!!
Mais um motivo para encontrar respostas fundamentadas de que nossa identificação com lugares e pessoas através da fotografia, principalmente, não vem à toa ou pelo menos não deveria vir, como relatou muito bem Sequeira nessa apresentação divina de sua motivação fotográfica. Sequeira, como Yi-Fu Tuan, também é unânime entre nós e entre todos. E isso, pelo que tenho observado, é fácil: é só ser ele mesmo. E isso ele é demais!!
Publicado em afeto, alexandre sequeira, belém do pará, espaço, Fernanda Magalhães, geografia humanística, nazaré de mocajuba, topofilia, yi-fu tuan | 2 Comentários